<font color=0094E0>Grande Gala de Ópera</font>

Wolf­gang Ama­deus Mo­zart (1756-1791)

O músico que veio ao mundo na cidade austríaca de Salzburg é, conjuntamente com Le­o­nardo da Vinci, o mais exuberante modelo de genialidade presente na história da cultura humana. Se bem que, ao invés de Leonardo, a genialidade de Wolf­gang se tivesse confinado a uma única arte. Filho do conhecido compositor alemão, violinista e teórico da arte dos sons Le­o­pold Mo­zart, cedo revelou ser um verdadeiro prodígio. Isso motivou que ainda criança, com 7 anos, tivesse tocado em público em várias das principais cidades europeias, incluindo Paris e Londres, onde se apresentou na corte, tocando para as respectivas famílias reais e deslumbrando todos os que o escutavam, assim se tornando uma verdadeira celebridade internacional. Ainda criança, viu serem editadas algumas das suas primeiras criações musicais. Embora sempre tivesse tido especial inclinação para a ópera, tendo composto a primeira com 13 anos, Mo­zart não foi apenas, nem principalmente, um autor de música cénica. Criou todo o tipo de obras musicais: sinfonias, concertos, sonatas, missas e outras obras sacras, peças de música de câmara, canções (Li­eder), etc. e em todos esses géneros atingiu níveis máximos, legando-nos partituras admiráveis que de modo particularmente eficaz têm concorrido para melhorar a vida de milhões de seres humanos ao longo de mais de duzentos anos. O efeito benéfico da sua música no plano da psique humana (saúde mental) tem sido cientificamente demonstrado no âmbito de vários estudos. Mas na verdade, enquanto criador de música a sua preferência ia para o teatro musical. As três óperas compostas em colaboração com o libretista Lo­renzo da Ponte, e a ópera maçónica Die Zau­ber­flote (A flauta má­gica) constituem verdadeiros cumes estéticos; grandes monumentos da história da arte universal que transcendem em muito o domínio específico da arte musical. Em todas elas se manifesta o espírito progressista do compositor que não hesitou em estar ao lado dos elevados ideais da Revolução Francesa e do racionalismo setecentista. A sua ruptura com o Principe-Arcebispo de Salzburg, em 1781, recusando-se a trabalhar sob as suas despóticas ordens, constitui ainda hoje um símbolo histórico da independência profissional do artista criador. Tendo composto obras absolutamente geniais como Don Gi­o­vanni (D.João), Le Nozze di Fí­garo (As bodas de Fi­garo), Così fan tutte (Assim fazem todas) ou Die Zau­ber­flote (A flauta má­gica), Mo­zart é, indiscutivelmente, na boa companhia de Verdi e Wagner, um dos três melhores compositores de ópera e um dos maiores criadores de Arte de toda a história da humanidade.


As Bodas de Fí­garo (Mo­zart)

É uma das maiores criações artísticas da história da cultura humana.As Bodas de Fí­garo («Le Nozze di Fígaro») são o primeiro fruto operístico da fecunda colaboração entre o genial Mo­zart, então já consagradíssimo, e o escritor Lo­renzo da Ponte. Com base na celebrada peça de Be­au­mar­chais La folle journée ou le mar­riage de Fí­garo (segunda parte da politicamente comprometida “Tri­logia de Fí­garo”), a ópera apresenta-nos com notável sentido de humor os rocambolescos episódios relacionados com o casamento do Sr. Fí­garo com a menina Su­sana, ambos criados do palácio do conde de Al­ma­viva. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa marcam aqui inequívoca presença. A inteligência e a astúcia de Fí­garo e Su­sana contrastam e conflituam com os depravados hábitos do aristocrata conservador, ocioso e inútil. Mas a obra, servida por uma música verdadeiramente sublime, vai muito para além das questões sócio-políticas imediatas, legando-nos profundas mensagens universais sobre a alma humana e a possibilidade/dificuldade de os humanos se entenderem uns com os outros.
Composição bastante longa, em 4 actos, foi estreada na Ópera de Viena em 1786, logo adquirindo enorme sucesso em toda a Europa.

Aber­tura

Típico exemplo da tradicional peça sinfónica com que no século XVIII se iniciava o espectáculo de ópera. Era tocada antes de ser aberto o pano de cena. Neste caso particular trata-se de uma das mais admiráveis aberturas da história da música, muitas vezes executada como peça de concerto, independentemente da representação cénica da ópera. Simplesmente genial.

“Non più an­drai”

É a grande ária de Fí­garo com a qual se encerra o 1ºacto de As Bodas de Fí­garo. O jovem Che­ru­bino, que faz a corte a todas as mulheres do palácio, acaba de receber a notícia de que o Conde o mandou alistar-se no exército. Uma forma de se ver livre dele, uma vez que o dito jovem, verdadeiro D.João em potência, lhe faz concorrência no plano amoroso. Fi­garo, que também não simpatiza com Che­ru­bino por saber que ele arrasta a asa à sua própria noiva (Susana), faz troça dele, brincando com o que, aos olhos do jovem, é uma verdadeira calamidade: a sua entrada na vida militar. «Não irás, mais («non più an­drai»), borboleta do amor, perturbar o repouso das belas mulheres do palácio» – diz-lhe Fí­garo sempre em tom trocista; e chama-lhe Narciseto e Adocino d’amor (Narcisozinho e pequeno Adonis do amor). No final, continuando a dirigir-se a Che­ru­bino, diz-lhe em tom irónico e ainda mais trocista: «Che­ru­bino, à vitória, à glória militar!» E desse modo termina o 1º acto.

Ge­orges Bizet (1838-1875)

Nascido em Paris numa época em que os grandes centros de influência no domínio da arte musical se situavam na Alemanha e em Itália, Bizet, sob a influência do seu mestre Gounod, propôs-se reanimar a ópera francesa de modo a que ela pudesse recuperar o prestígio que tinha tido no século anterior. Filho de uma óptima pianista e de um professor de canto, não teve dificuldade em encontrar os meios e os apoios necessários à sua formação musical. Em face dos notáveis dotes cedo revelados, o pai resolveu inscreve-lo no Conservatório de Paris quando ainda não tinha atingido os 10 anos de idade. Mas como não tinha a idade mínima requerida teve que fazer um exame especial de admissão que superou com sucesso. Ai beneficiou dos ensinamentos de grandes professores, como o já citado Gounod, Jo­seph G.Zim­merman, Ha­lévy (com cuja filha Ge­orges mais tarde viria a casar) e Mar­montel. Sob a orientação deste último tornou-se um pianista brilhante. Mas as suas qualidades enquanto compositor sobrepuseram-se à veia pianística. Logo em 1855, quando ainda era estudante, compôs a notável Sin­fonia em dó que só veio a ser executada muitos anos mais tarde, já em pleno século XX. Um adiamento causado pelo desinteresse então reinante em França relativamente à forma sinfonia. Uma desatenção que acabou por abrir caminho ao seu interesse pela ópera. E foi precisamente uma ópera que lhe garantiu a celebridade mundial de que o seu nome goza desde a última década do século XIX, mas que ele nunca chegou a saborear. Essa ópera, intitulada Cármen, e hoje tão universalmente aclamada, foi ao mesmo tempo causa de celebridade e de morte. A circunstância – para nós quase incompreensível – de essa obra-prima ter sido mal recebida pelo público na altura da estreia fez com que Bizet tivesse entrado num estado de profunda depressão que acabou por provocar dois ataques cardíacos que lhe casaram a morte. Nunca chegou a ter conhecimento do enorme êxito de algumas das suas criações operísticas, principalmente Les pê­cheurs de perles (Os pes­ca­dores de pé­rolas), L’Ar­lé­si­enne e, claro está, Cármen.

Cármen (Bizet)

É uma das mais populares ópera jamais compostas e também uma das melhores. Quando dela se fala, logo se pensa em Espanha, na cultura espanhola, no temperamento do povo espanhol, na tourada, na cidade andaluza de Sevilha. De tal forma que, entre os não iniciados, há quem julgue tratar-se de uma ópera espanhola e não francesa. No entanto, o seu autor, o francês Ge­orges.Bizet, nunca pisou solo espanhol, nem nunca quis visitar esse país vizinho do seu. Além disso, embora a acção decorra toda em terras de Espanha, a temática tem verdadeira dimensão universal e até mítica, na medida em que a carismática figura central é, em certa medida, uma tradução feminina do mito de D.João. É a força da anti-rotina, da criatividade e da liberdade existencial do donjuanismo posta no feminino. Em pleno século XIX, quase cem anos antes dos efeitos culturais e sociais da pílula, Cármen como que antecipa ou anuncia, com surpreendente audácia, a revolução sexual da década de 60 do século seguinte. Nessa medida, a ópera (texto e música) vai muito para além da novela de Prosper Me­rimée, em que se baseia. O relato da trágica relação amorosa entre o militar D.José (tenor)e a cigana (papel que tanto pode ser interpretado por uma voz de soprano ou como de meio-soprano). Não é de estranhar que as classes dominantes tenham manifestado desagrado face à pública abordagem do tema do amor livre, reagindo com a habitual hipocrisia. Du Locle, director da Ópera Cómica de Paris, onde a obra foi apresentada pela primeira vez, ainda alertou para o perigo de ferir a sensibilidade do público, mas já era tarde. Cármen foi estreada em 1875. A récita de estreia foi um fracasso. A obra, fruto de 13 anos de dedicado trabalho, foi rejeitada pelo público. Bizet não sobreviveu ao profundo desgosto causado por este insucesso. Mas as mentes mais cultivadas, entre as quais se contava a do filósofo alemão Ni­etzsche, logo reconheceram a genialidade da partitura.

“Ha­ba­nera”

É a primeira grande ária cantada por Cármen no 1ºacto, funcionando como peça de apresentação da personagem central, a indomável cigana de Sevilha que simboliza a mulher livre, ou a liberdade do sexo feminino. A ária tem uma fortíssima dimensão erótica associada à vontade de liberdade expressa em tudo o que essa mulher faz ou diz. «L’a­mour est un oi­seau re­belle que nul ne peut ap­pri­voiser» («O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar»), diz a cigana logo no início da ária. «O amor jamais conheceu lei», «il n’a ja­mais, ja­mais connu de loi», ou seja, o amor é livre. A Ha­ba­nera é a adaptação de uma canção espanhola intitulada “El Ar­re­glito” composta por um amigo de Bizet, o compositor espanhol Se­bas­tián Ira­dier. Não se trata de um plágio, mas sim de uma adaptação através da qual, no uso de uma prática corrente na época, o compositor presta homenagem a outro autor. Um dos méritos maiores deste trecho consiste na forma como traça logo à partida o perfil psicológico, os contornos do eu-essencial da personagem Cármen. Características que vão despoletar um muito interessante processo de transformação do homem que mais intensamente a ama, o militar D.José. Essa complexa metamorfose psicológica do principal personagem masculino é caso raro no panorama operístico e um dos aspectos mais interessantes da obra. O disciplinado militar torna-se contrabandista e assassino por efeito do seu oposto, a rebelde cigana por quem se apaixona. Uma interessante dialéctica.

“Votre toast”

O grande toureiro Es­ca­millo goza de enorme popularidade, sendo aclamado pelo povo em todas as cidades onde actua. Prepara-se agora para tourear na grande praça de Sevilha e procura publicitar o seu espectáculo. Esta grande ária é cantada no 2º acto e é a principal atribuída ao personagem Es­ca­milloCarmen por quem se vai apaixonar, tornando-se rival de D.José. Nesta grande ária Es­ca­millo faz uma descrição do espectáculo da corrida de touros, fazendo alusão ao picador arrastado pelo touro, apimentando a descrição com a alusão ao tremendos riscos da tourada. A certa altura diz: «Toreiro em guarda! … pensa ao tourear que um olhar negro te vê e que o amor te espera (l’a­mour t’at­tend).» A palavra amour é vária vezes repetida pelo toureiro e também por Mer­cedes e Carmen, fazendo prever o romance amoroso entre matador e cigana.


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